Sei que dói, mas há más notícias

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Kenneth Gallbraith sabia do que falava quando dizia que “A Economia é muito útil para dar emprego aos Economistas.” Ainda assim, muitos economistas portugueses acumulam um segundo emprego como fenomenologistas, ou leitores de sinais desenhados nos campos de milho. São uma espécie de ovnitólogos amadores que descobrem sinais de retoma extraterreste num relatório do INE.
Com a descida da taxa de desemprego de 17,7 por cento para 16,4 por cento do primeiro para o segundo trimestre do ano – a juntar a outros ténues indicadores positivos, – a direita acantonada no poder e nalguma opinião acólita e geralmente acéfala, apressou-se a rejubilar com o fim da crise que o primeiro ministro Passos Coelho nos tinha prometido num delírio de febre no verão passado.

Infelizmente para todos nós, as notícias do milagre económico português são manifestamente exageradas.

Sei que dói, mas há más notícias. E as más notícias estão estampadas a bold no relatório da Comissão Europeia de fevereiro passado, que traçava um cenário catastrófico para o nosso país. Convém reavivar a memória dos mais eufóricos e reler este artigo do Expresso sobre as projeções da Comissão Europeia.
Atendendo a que tanto o Expresso como a Comissão Europeia são insuspeitos de ser da esquerdalha bota-abaixo é bom notar que: De fevereiro para cá, não consta ter havido nenhum milagre da Nossa Senhora de Fátima digno desse nome (apenas na inabalável fé do inquilino do Palácio de Belém).
De fevereiro para cá, não consta ter havido políticas activas de promoção do emprego, de estímulo à economia ou de apoio às exportações.
De fevereiro para cá, não consta ter havido desafogo fiscal, investimento público ou privado capaz de mexer nos números do crescimento.
De fevereiro para cá, não consta ter havido aumento do consumo privado de bens e serviços.
De fevereiro para cá não consta ter havido um governo coeso e estável, concertação, consenso ou paz social.

Nesse caso, o que explica a abrupta descida da taxa de desemprego, que o Governo e seus moços de recados trataram de embandeirar em arco, como já haviam feito com os dois únicos sucessos da política financeira e económica em dois anos de mandato para uma desastrosa austeridade de laboratório (a balança comercial e a descida dos juros dos empréstimos, uma e outra causadas por factores exógenos à actividade governativa, como derreter ouro, baixar o consumo privado e as importações ou beneficiar de boas medidas do Banco Central Europeu).

Para já, trata-se de um epifenómeno, cuja melhor explicação se pode ler neste excelente artigo de Pedro Romano, que diz o mais acertado sobre o tema, ou seja, que ele é para já moderadamente inexplicável.

E por ser insólito e inexplicável, aconselharia prudência e juízo na análise.
Prudência e juízo que o novo ministro da Economia (Pires de Lima) teve nas suas declarações de um refrescante bom senso e inteligência, quando comparado com os orneios públicos e publicados pela manada de asnos, movidos apenas pela fé clubística.

Como prudência e inteligência deveriam ter os adversários das políticas de austeridade e a oposição, não relativizando ou menosprezando as boas notícias que todos os portugueses precisam de ouvir, mesmo que sejam a galope de trabalho sazonal não qualificado e pago a preço de Bangladesh, ao contrário do oásis de empreendedorismo e de start ups que este Governo quer criar no lugar de cervejarias, escolas públicas ou postos dos Correios.

Infelizmente, para lá das querelas clubísticas domésticas, há um mundo lá fora que nos olha desconfiados e com desprezo e uma Europa a que estamos acorrentados para o bem e para o mal.
Basta ler este artigo do Economist (insuspeito de ser esquerdalha) para saber que vamos a caminho do segundo resgate e com ele mais austeridade cega, que reproduzirá os mesmos resultados da política que este Governo de farsantes abraçou como sua, durante os últimos dois anos. Ou seja, a mais terrível devastação económica, social, moral, ética e psicológica que o país sofreu desde que é uma democracia. Por isso lamento, sei que dói, mas há más notícias.

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